Meditações anti-cartesianas

Hoje à tarde assisti a aula magistral de Enrique Dussel, no Centro de Estudos Sociais. Há muitos anos não ouvia um discurso filosófico tão profícuo, criativo e tão aplicável ao nosso presente, em particular, a nós sulamericanos e portugueses. Apesar de não me sentir capaz de explicar sua Filosofia da Libertação, tentarei, em linhas gerais, dizer algo acerca do que ouvi hoje.

Enrique Dussel é filósofo argentino, exilado político desde 1975 no México, onde é professor do departamento de filosofia na Universidad Autónoma Metropolitana (UAM, Iztapalapa, ciudad de México). Seus estudos se encontram no campo da Filosofia Política, o que acaba por levá-lo também à História, à Teologia e à Ética.

Ressalte-se que, num momento em que acontece a “queda do império americano” e a emergência das nações do “segundo mundo”, como afirma o pesquisador indiano Parag Khanna, o discurso anti-eurocentrista de Dussel vem bem a condizer.

Na aula de hoje, Dussel resgata o que ele chama de Primeiro Modernismo, rebatendo uma suposta verdade, muito aceita em nossas academias, que afirma ser o filósofo francês René Descartes o primeiro pensador moderno por excelência. O Primeiro Modernismo é anterior a este filósofo e teria tido seu início oficial por ocasião das conquistas coloniais, particularmente a América por Colombo. Desde esta época até o Discours de la Méthode, de Descartes, publicado em 1637, passaram-se 150 anos. Portanto, seria difícil imaginar que neste espaço de tempo não teria havido nenhum pensador que se pudesse considerar moderno.

Neste sentido, um ponto que Dussel destaca é o próprio ambiente em que Descartes teve sua formação. Ele fora para o colégio jesuíta de La Flèche aos dez anos de idade e nos dez anos seguintes estudara os que, na época, eram considerados os maiores expoentes do pensamento filosófico europeu. Dentre eles estão Francisco Soares, professor da Universidade de Coimbra que publicou oito tomos sobre Filosofia, e Antonio Robio, estudioso mexicano da Lógica. Ambos, pensadores ilustres do século anterior a Descartes, com discursos que podemos considerar modernos, sendo que o primeiro Dussel acredita ter sido o fundador da Filosofia Moderna.

El impacto de la invasión moderna de América, de la expansión de Europa en el occidente del Atlántico, produjo una crisis el antiguo paradigma filosófico, pero sin todavía formular otro enteramente nuevo –como lo intentará, partiendo de los desarrollos del siglo XVI, René Descartes-. Debe indicarse que la producción filosófica del siglo XVI en España y Portugal estaba diariamente articulado a los acontecimientos atlánticos, a la apertura de Europa al mundo. La Península Ibérica era el territorio europeo que vivía la efervescencia de los descubrimientos inesperados. Llegaban noticias permanentemente de las provincias de ultramar, de América hispana y Filipinas para España; de Brasil, Africa y Asia para Portugal. Los profesores universitarios de filosofía de Salamanca, Valladolid, Coimbra o Braga (que desde 1581, por la unidad de Portugal y España funcionaban como un solo sistema universitario) tenían alumnos que provenían de esos territorios o partirían a ellos, y los temas relacionados a esos mundos les eran inquietantes y conocidos. Ninguna universidad del norte de los Pirineos tenía en Europa tal experiencia mundial. La segunda escolástica, así llamada, no era un simple repetir lo ya dicho en la Edad Media latina. La irrupción en las universidades de una Orden religiosa completamente moderna, pero no simplemente por estar influenciada por la Modernidad sino por ser una de las causas intrínsecas de ella misma50, los jesuitas, impulsan a los primeros pasos de una filosofía moderna en Europa. (In texto de Dussel)

Dussel afirma que por trás do ego cogito de Descartes sustenta-se ego conquiso, ou seja, um aparato filosófico que justifica o colonialismo e funda a Primeira Modernidade. No entanto, é graças ao filósofo alemão Hegel que se pode atribuir a designação de Descartes enquanto “primeiro grande moderno”. Assim como se lhe atribui também a implementação eficaz de uma tonteria ideologica, no dizer de Dussel, que teria levado ao paroxismo as três maiores criações do Iluminismo:

  1. o orientalismo,
  2. o ocidentalismo eurocentrista e
  3. o sul da Europa.

[Talvez seja justamente em seu modelo de pensamento cartográfico que se encontra uma das originalidades de Dussel. Segundo ele, isto se deve ao fato de que sua Filosofia Política leva-o a pensar a História no espaço político. Daí a importânica dos mapas para ele.]

Antes de Hegel, ou seja, até 1800, a Europa nunca teria sido o centro da história mundial. Este filósofo teria projetado a eurocentralidade desde o passado remoto. Uma eurocentralidade com tamanha eficácia, inclusive simbólica, que hoje, por exemplo, é quase impossível não encontrar o modelo de datação histórica criado em Europa nas escolas de todo o mundo. Um bom exemplo é a Idade Média, época que teria existido apenas na Europa, mas que é ensinada em todos os países onde a idade Média nunca existiu – China, Índia, Brasil etc.

A partir desta questão é que Dussel cita, inclusive textualmente, alguns pensadores latinoamericamos antigos, tais como Vera Paz (século XVI) e Bartolomé de Las Casas (1484-1566), este último considerado pelo filósofo argentino o primeiro crítico da Modernidade na América Latina.

Abaixo, deixo uma pesquena mostra do discurso entusiasmado de Enrique Dussel em dois videos, partes 1 e 2 de sua participação no Forum Mundial no México, em 2008.

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2 Responses to Meditações anti-cartesianas

  1. ziza disse:

    Oi Mônica, ótima referência e infos aprofundadas. Na wikipédia em língua portuguesa o que tem sobre ele não é nada muito extenso, você poderia colocar esse seu texto lá, em http://en.wikipedia.org/wiki/Enrique_Dussel. Acho que seria uma rica contribuição! Vamos marcar nosso encontro, só falar! Um beijo grande e cuida-te bem.

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