Inflação mundial e pobreza

A seguir reprodução de matéria do jornalista brasileiro Luiz Carlos Azenha e divulgada em seu blog, vi o mundo.

No Paraguai e no Haiti, onda de inflação torna comida menos acessível

CATADOR DE PAPEL COM OS DOIS FILHOS E VIZINHOS, EM FAVELA QUE FICA ATRÁS DO PRÉDIO ANTIGO DO CONGRESSO, BEM NO CENTRO DE ASSUNÇÃO. ELE SUSTENTA A FAMÍLIA COM O EQUIVALENTE A 300 REAIS POR MÊS. (Foto de Luiz Carlos Azenha)SÃO PAULO – Há alguns dias publiquei um texto sobre um fenômeno que ainda não chegou às manchetes pelo fato de que envolve só os mais pobres dos países mais pobres: a inflação mundial. Testemunhei pessoalmente o fenômeno quando estava no Paraguai e foram divulgadas estatísticas sobre a pobreza no país. Entre 2005 e 2007 o percentual de pobres no Paraguai caiu de 38,5% da população total para 35,6%. Porém, o número de miseráveis cresceu. Existem, hoje, 1.172.274 miseráveis no Paraguai, o que é uma enormidade considerando que a população do país é de cerca de 6 milhões de pessoas. E ainda é preciso “descontar” os 500 mil que são exilados econômicos na Argentina e na Espanha.

São considerados miseráveis os que não ganham o suficiente para consumir as calorias consideradas mínimas para manter a saúde.

Com o preço dos grãos em alta, por uma série de motivos, os pobres estão enfrentando maior dificuldade para comprar a comida básica. Nos Estados Unidos, a corrida para produzir milho usado na fabricação do etanol empurrou para cima o preço da ração, que torna a carne de frango e os ovos mais caros. O milho é essencial para a dieta básica de centenas de milhões de pessoas, especialmente na África.

No Paraguai, vastas extensões de terra são mobilizadas para produzir a soja que vai alimentar os porcos na China, mas a agricultura de subsistência está em crise. Os sojeiros compram os direitos de posse dos pequenos agricultores, que buscam refúgio em Assunção. Mas a economia da soja, ainda que de forma indireta, ainda traz alguns benefícios.

A crise mesmo está se dando em países como o Haiti. Na terça-feira, manifestantes invadiram o palácio presidencial exigindo a renúncia do presidente, René Préval. Soldados brasileiros, a serviço das Nações Unidas, dispararam balas de borracha e gás lacrimogênio para conter a multidão.

Os preços no Haiti subiram em média 40% desde a metade do ano passado. Nos últimos dias, cinco pessoas morreram durante manifestações. O presidente haitiano foi instalado no poder graças ao truque praticado por diplomatas brasileiros, que mudaram as regras da eleição de 2006 para permitir que ele vencesse no primeiro turno. Préval governa com endosso do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, que foi gentilmente convidado a abandonar o governo e embarcar em um avião escoltado por fuzileiros navais dos Estados Unidos. Aristide permanece no exílio.

Préval trabalha para emendar a Constituição, o que permitiria a um presidente cumprir mandatos consecutivos. Ele não será beneficiado pela medida. Especula-se que trabalha para levar Aristide de volta.

Apesar da ação da diplomacia brasileira ter instalado Préval no poder, os haitianos pró-Aristide consideram os 9 mil soldados que estão no país como força de ocupação. Alegam que a própria presença dos soldados provoca pressão inflacionária. É difícil descrever o Haiti. É mais fácil chorar. O país queimou quase todas as suas reservas florestais em carvão. A devastação ambiental é inacreditável. É uma ironia trágica que o país seja governado por um agrônomo. O Haiti não tem uma gota de petróleo. Tem apenas um grande rio, na fronteira com a República Dominicana, que provoca enchentes. O calor é pavoroso.

Experimentei pessoalmente a síndrome dos recém-chegados. Depois de 24 horas dando duro em Porto Príncipe, sob um sol de 50 graus, desabei na cama de um hotel e só consegui me arrastar até o aeroporto, no dia seguinte, empurrado pelo desejo de encontrar uma torneira com água corrente. Aos haitianos resta fugir para a República Dominicana. Ou invadir o palácio para pedir a cabeça do presidente.

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