Análise da grande imprensa, por Renato Pompeu

Renato Pompeu questiona as razões mercadológicas da grande imprensa

Por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA

Renato Pompeu sabe do que está falando: com 47 anos de profissão, e passagem pelos meios de comunicação mais influentes do Brasil, ele viveu boas histórias. Suas críticas à mídia são fundamentadas na sua experiência pessoal. Além de ter trabalhado a vida toda em redações, é filho e irmão de jornalistas; seu pai era o renomado Paulo Pompeu.

Uma dessas histórias, exemplos de como funciona a grande mídia, ocorreu há 30 anos atrás. Pompeu era editor-assistente de medicina da revista Veja, e viu uma reportagem que escreveu sobre acupuntura – prática ainda desconhecida no país – ser reduzida ao espaço de uma coluna. Ele escolheu falar sobre um ambulatório do INSS em Recife, que oferecia acupuntura aos pacientes, fato incomum apurado durante a produção da reportagem.

O então diretor-adjunto da Veja reclamou com Pompeu da foto escolhida para ilustrar a matéria: um enfermeiro branco atendendo um paciente negro. Ao questionar a reclamação, ouviu do diretor: “você acha que isso pode sair na Veja? Um enfermeiro preto atendendo um paciente branco?”. Pompeu perguntou se ele era racista: “Eu, não, mas nossos leitores são”.Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Renato Pompeu questiona as razões mercadológicas que levam grande parte do público a se interessar muito mais pelo que já conhece do que pelo que não conhece. “O jornalista deve dar a informação de que, com sua experiência profissional, ele sabe que o público necessita, ou a informação que o público quer?”

Também faz uma análise da mídia atual. Diz que, quando começou, “a opinião do jornal só se expressava nos editoriais, hoje se expressa praticamente em cada matéria, mesmo nas noticiosas. Também antes o artigo assinado expressava a opinião da pessoa que assinava, hoje a maioria dos colunistas defende a opinião dos donos do órgão em que trabalha e não a sua própria”.

Portal IMPRENSA – Em sua carreira você já passou por muitos veículos de comunicação, das mais variadas linhas editoriais, além de ter acompanhado a história da mídia brasileira, pois sua família é toda de jornalistas. Como você avalia o rumo tomado pela imprensa brasileira, principalmente a grande imprensa?
Renato Pompeu –
Desde o início de minha carreira, há 48 anos, a principal mudança foi no tipo e na extensão do partidarismo na imprensa. Em 1960 ainda vigorava o modelo europeu, com os jornais defendendo cada um um partido político específico. Assim o Estadão era udenista, a Última Hora era petebista, O Dia era ademarista, A Hora era janista, o Notícias de Hoje era comunista. Só a Folha era apartidária e neutra. Com exceção da Última Hora, a grande imprensa foi maciçamente pró-golpe e defendeu o regime militar, no decorrer do qual só alguns órgãos – Estadão, JT, Veja, O São Paulo, Opinião, Movimento e não lembro mais nenhum – sofreram censura. Hoje os jornais seguem o modelo americano, aparentemente apartidário, mas na verdade cada jornal constitui um partido político específico, com interesses próprios. Assim, a Folha defende os interesses políticos da empresa Folha, a Veja as da Abril, e assim por diante. Além disso, quando comecei a opinião do jornal só se expressava nos editoriais, hoje se expressa praticamente em cada matéria, mesmo nas noticiosas. Também antes o artigo assinado expressava a opinião da pessoa que assinava, hoje a maioria dos colunistas defende a opinião dos donos do órgão em que trabalha e não a sua própria.

IMPRENSA -Você conta que antigamente os editores diziam aos repórteres: “temos que dar essa matéria porque ninguém mais deu”. E hoje, nas redações se diz: “não vamos dar isso porque ninguém mais deu”. O que mudou?
Pompeu –
Não é bem assim. O cientista político francês Régis Debray, que foi companheiro da guerrilha do Che na Bolívia e passou anos lá preso e depois foi conselheiro do presidente François Mitterrand, é que constatou que antigamente o diretor de redação dizia “Opa, vamos dar já isso, ninguém está falando nisso”, e hoje o diretor diz “Ora, isso não vamos dar, ninguém está falando nisso”. Acontece que antes se dava valor à novidade, ao desconhecido, e hoje se repisa a mesma coisa, por razões mercadológicas, já que grande parte do público se interessa muito mais pelo que já conhece do que pelo que não conhece. Aqui devemos comparar com o médico: o médico deve dar o tratamento que o paciente precisa ou o tratamento que o paciente quer? O jornalista deve dar a informação de que, com sua experiência profissional, ele sabe que o público necessita, ou a informação que o público quer?

IMPRENSA – Como você acha que a internet mudou o jornalismo? O jornalismo como conhecemos ainda tem espaço e vai durar? Com as facilidades que a tecnologia traz, como o acesso à informações pela internet, ou o fato de não ser necessário se deslocar até uma fonte para entrevistá-la, hoje os textos jornalísticos têm mais qualidade de apuração?
Pompeu –
As principais contribuições da Internet são a multiplicidade de fontes e a interatividade entre fontes e o público. Não sou capaz de prever o futuro, mas acho que o jornalismo tal como se praticava antes da Internet vai continuar, mas com menor espaço.
As técnicas de apuração e de redação estão se desenvolvendo cada vez mais, mas cada caso é um caso e às vezes a facilidade da tecnologia implica num comodismo prejudicial à qualidade da informação. Continua sendo importante o repórter cobrir pessoalmente os acontecimentos.

IMPRENSA – Que conselhos você daria para alguém que está começando no jornalismo?
Pompeu –
1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na Internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios.

Disponível nos links abaixo:

Portal Imprensa

Observatório da Imprensa

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